O que é brincar livre?

Voltar para o arquivo

Falar em brincar não soa estranho para ninguém: afinal toda criança brinca. No entanto, na Antroposofia falamos no brincar livre, base da Pedagogia Waldorf

Segundo a Pedagogia Waldorf, esse brincar livre é a oportunidade que a criança tem de se expressar livremente e brincar a partir de si mesma, sendo visto como o maior e o melhor estimulante para o desenvolvimento infantil.

Com base nisso, fica a cargo dos adultos fornecer meios e organizar o dia da criança de forma a proporcionar a ela tempo para a brincadeira, especialmente agora em que o tempo livre na agenda da criança está cada vez mais escasso.

É comum que os pais se perguntem: “o que faço enquanto a criança brinca sozinha?”. A resposta é simples: tente se empenhar em alguma atividade com o mesmo entusiasmo que a criança tem ao brincar

No brincar livre, o adulto se torna um espectador dessa atividade infantil e reside nessa observação o seu processo de autoeducação. É comum que, nesse momento, o adulto se confronte com sua própria expectativa de mostrar algo pronto para a criança, mas o que está em jogo é a maneira como conduzimos o processo de aprendizagem. 

Portanto, cabe aos adultos provocar o conhecimento e se policiar para não atropelar o desenvolvimento da criança na ânsia de ensinar. É por essa razão que no brincar livre o papel do adulto é proporcionar um ambiente autoeducativo e zelar pela segurança da criança

Porém, é importante destacar que o brincar livre não significa largar a criança ao seu próprio cuidado. Aliás, a presença do adulto é necessária para que ela se sinta segura e assistida, de modo a relaxar sabendo que alguém zela por ela. 

Também é importante que o adulto crie oportunidades para que a criança possa imitá-lo. Neste sentido, as tarefas domésticas são saudáveis, primeiro porque seu objetivo é o cuidar da casa e, consequentemente, dos que fazem parte dela, onde a criança se inclui. Ela vê o cuidado de uns com os outros através do que se oferece como ambiente, roupas limpas ou comida que alimenta a todos. Mas, também, por meio dessas atividades a criança enxerga os processos, presenciando algo que acontece dentro de uma linha do tempo.  

Em tarefas simples, como lavar a louça, a criança vê começo, meio e fim. Essas atividades repletas de sentido são extremamente saudáveis para sua formação. Ver um adulto no computador ou lendo um livro não oferece este tipo de vivência. 

Outra situação pedagógica é a convivência com irmãos, primos e amigos menores ou maiores. É por meio dessa experiência que a criança consegue extrair aspectos para a imitação. 

Brincar o dia todo também não é saudável. O brincar se relaciona ao processo de expansão, mas é preciso contrabalancear com momentos de contração, em que a criança tem a oportunidade de entrar em contato consigo mesma, como nos momentos da alimentação, de ouvir uma história ou de fazer um pão, por exemplo. 

Se a criança tiver garantidos momentos de expansão, será natural ela também ansiar pelo seu oposto, a contração. Isso torna as tarefas como o banho ou se sentar para comer mais fáceis de serem aderidas pelos pequenos. 

Na maioria das vezes, esta alternância de polaridades não é oferecida às crianças. Insere-se em sua rotina uma grande carga de atividades dirigidas, que em sua maioria estão relacionadas à contração. Um exemplo claro disso é o excesso de contato com eletrônicos, que torna as crianças inativas, apenas recebendo informação.

Se queremos conhecer a criança, devemos observar como ela brinca. Alguns adultos erroneamente entendem que a hora do brincar é o momento de um café ou responder mensagens no celular. Claro, que às vezes, essa é uma oportunidade para o adulto executar tarefas necessárias. 

Porém, é essencial que os pais estejam atentos aos seus nossos próprios excessos. Quem puder usar este tempo para observar a criança, certamente aprenderá a escutar seu filho e perceber suas emoções a partir do modo como ele brinca, fala ou se relaciona.

O brincar livre é momento de experimentação e, por essa razão, devemos conter nosso ímpeto de dar explicações. Aqui mora uma lição preciosa para os pais: permitir que as crianças descubram soluções, em vez de mostrar o “jeito certo” de fazer. 

Se o adulto ensina, tira da criança a capacidade de aprender por si e permitir essas experimentações faz com que a criança leve uma lição para toda a vida: a capacidade de superação e de descobrir de soluções por si mesma.

 

Brincar em cada idade

O brincar livre varia de acordo com a faixa etária da criança. Quando ela olha para as próprias mãos, ainda bebê, está brincando e se relacionando com seu corpo

O corpo é o primeiro brinquedo da criança e o meio pelo qual ela vive a brincadeira

A partir do terceiro ano de vida começa a fase da fantasia, quando a criança amplia o repertório para desenvolver suas próprias brincadeiras. Na fantasia tudo é possível: um pedaço de pau pode virar uma colher, um carrinho. A criança fantasia o tempo todo. Já no final do primeiro setênio, falamos da qualidade imaginativa, quando a criança tem uma meta para o brincar, ou seja, ela brinca para chegar a algum lugar. 

A criança pequena não busca resultados, ela está experimentando seu corpo e suas relações com o mundo para aprender a desenvolver seu próprio eu. O brincar é uma atividade executada com seriedade. Basta observar como ela o faz como um adulto executando seu ofício. 

Na brincadeira, a criança transforma em atividade exterior aquilo que vive dentro de si. Do segundo setênio em diante, ela pode transpor a seriedade no brincar para a vida escolar e, posteriormente, levará isso como base para a execução do trabalho na vida adulta. Daí a importância da brincadeira como construção do ser humano.

Donald W. Winnicot, psicólogo referência no desenvolvimento infantil, observou que crianças que brincam próximo das mães demonstram níveis mais altos de criatividade do que aquelas mais afastadas. 

As crianças são altamente criativas desde que estejam a um certo raio de distância de suas mães, o chamado CÍRCULO DE CRIATIVIDADE. Neste “espaço”, elas podem assumir riscos e experimentar coisas como cair e levantar, fracassar e ter sucesso. Elas se sentem protegidas e seguras na presença de uma pessoa que as ama incondicionalmente. Este amor cria um círculo paralelo, o CÍRCULO DA FELICIDADE, no qual a criança é encorajada a seguir as coisas que são significativas para ela, independentemente do sucesso.

Além disso, estas experiências em que a criança exercita a criatividade, comete erros e têm êxitos, traz fiança, ou seja, um lastro emocional onde a criança ganha “COM-fiança”, em si e em suas capacidades. O reforço disso, ao longo da infância, fica marcado no cérebro como sensação de êxito. Este tipo de memória será acessada por este indivíduo na vida adulta sempre que se vir diante dos desafios. Portanto, a presença dos pais, além de criar vínculo, também é essencial na formação desse circuito cerebral de autoestima, que são base da autoconfiança.

Essa presença atenta ao lado da criança é um dos gestos do cuidar para que possamos exercer a parentalidade de forma consciente. Afinal, enquanto guardiões do mistério da criança que nos é confiada quando nos tornamos pais, podemos acompanhar e proporcionar o ambiente para que aquele ser expresse suas capacidades criativas. O pai/mãe/cuidador não intervém, mas acompanha paciente e atentamente cada etapa do seu processo, confiando em seu pleno desenvolvimento.

No brincar, nos construímos, aprendemos não apenas sobre movimento, motricidade e equilíbrio, mas a imaginar, fantasiar e transformar o que vive dentro de nós em realidade.  No brincar, colocamos nossa própria vontade a serviço de criar algo e nesse treino vamos ganhando confiança em nossa capacidade de realização.

Entrar em contato com o que vivemos nessa fase da vida, em que o brincar parecia ser mais permitido, pode nos dar pistas de como aprendemos a colocar nossos ideais e desejos para o mundo e tecer relações entre o que vivemos – ou não vivemos – e nossa saúde hoje em dia. Se você é um investigador de si mesmo e deseja se aprofundar,  preparei um material especial sobre esta temática que pode ser baixado gratuitamente. Trata-se do journal parental com perguntas reflexivas que o conduzirão nesta investigação preciosa sobre sua própria construção. A partir do desejo do conhecimento sobre si, ganhamos autoconsciência e nos apropriamos, cada vez mais, da nossa biografia.

Camila Capel Bio

Camila Capel

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.