Os filhos não vêm com manuais

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Os filhos não chegam com manuais de uso ‒ por mais que esta frase pareça um clichê, às vezes demora anos para que os pais percebam o impacto curativo que seu entendimento pode gerar. Todo pai sabe que seu filho não é igual ao do vizinho, do amigo, dos livros, nem mesmo igual ao próprio irmão, aliás temos certeza do quão são diferentes, embora tenham saído dos mesmos pais. Mesmo assim, às vezes a comparação é inevitável, então ouve o eco de uma voz que ainda espera que o filho entre nas estatísticas. Infelizmente, este é um passaporte para a frustração, porque no momento que se espera um padrão, nega-se a singularidade daquela criança.

Nos primeiros anos de vida, a criança pouco se diferencia de seu ambiente, de seus pais. Ela sente o emocional deles, porque conta com uma espécie de sentido a mais, que a torna capaz de uma leitura além das palavras.  As emoções, frustrações, desejos e sentimentos dos pais, que às vezes nem eles próprios se dão conta, são sentidos pela criança. E curiosamente, a percepção da criança, de não estar atendendo às expectativas de seus pais, causa um comportamento negativo ainda mais intenso. Então falamos corriqueiramente que estão querendo “chamar a atenção”…e de fato estão. Mas uma atenção não para si, mas que os próprios pais revejam suas condutas também. Essa é a sabedoria que nasce com cada criança, a sabedoria de quem não apenas aprende, mas também ensina através de suas necessidades e do que suscita nos pais.

Porém, isso acontece em um nível não verbal, portanto difícil de ser notado. Então, o foco se distorce, evidenciando apenas o comportamento indevido da criança e comportamento negativo se reforça pela falta de momentos onde a criança se sinta valorizada. Os pais se atentam aos problemas de comportamento sem e puxar o fio deste novelo muito maior, que costuma trazer à tona muita dor e culpa. Por isso, fica-se sempre no nível raso das relações, onde a angústia dos pais às vezes é tão grande em relação aos comportamentos inadequados e relações com filhos, que eles querem apenas eliminar o mau hábito. Lançam mão, então, de livros, terapias, médicos, conselhos, toda sorte de técnicas para resolver o comportamento explícito, mas fica oculto o fator primordial.

Os filhos estão em nossas vidas para que possamos nos autoeducar. Isso só acontece quando entramos de cabeça em nossas maiores frustrações, quando olhamos de frente nosso ego e nos prontificamos a trilhar o caminho do crescimento com nossos filhos, não como seus mestres, mas como parceiros em uma jornada em que dois seres humanos se desenvolvem juntos.

Camila Capel Bio

Camila Capel

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