Parentalidade Essencial: A escola da vida

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“Um chamado para a autoeducação”

Dividindo experiências, conhecimentos, acertando e, principalmente, errando, vou me tornando mais humana.

Como você reagiria se soubesse que vai receber um Iluminado em sua casa?

A criança traz o céu para a Terra, pois é um presente do mundo espiritual para o mundo terreno. Com ela ganhamos a oportunidade de observar e viver próximos de um verdadeiro ser iluminado. Olhar com apreciação, surpreender-se e alegrar-se  na caminhada; a criança é a oportunidade de se maravilhar todos os dias com o mistério da vida.

A parentalidade é o ser vivo que nasce quando iniciamos este novo papel de pais. É um ser que pulsa, experimenta, reinventa e evolui com seus acertos e também com seus erros. 

A Parentalidade Essencial não é um manual sobre como ser pai ou mãe. Trata-se de um chamado para uma construção conjunta, em que os pais se desenvolvem por meio do exercício da autoeducação e os filhos aprendem o real sentido do que é ser humano. Afinal, acima de pais, somos seres humanos desempenhando múltiplos papéis na vida, em que um deles é a parentalidade. 

Ao mostrar para nossos filhos que, além de mãe ou pai, somos um ser inteiro, estamos ensinando não apenas sobre Inteligência Emocional, mas sobre Inteligência Espiritual

Meu impulso nasce da vontade de compartilhar minha própria prática neste exercício de disciplina constante, vontade e humildade, pois acordo diariamente pronta para me surpreender e aprender com as crianças. 

Para isso, conto com a Antroposofia, a visão antropológica da criança e a Medicina Tradicional Chinesa. Estes elementos tornam meu solo firme para extrair o essencial destes saberes. Portanto, meu desafio é construir pontes entre a neurociência, a fisiologia, a epigenética e a Medicina do Estilo de Vida para trazer esses ensinamentos para o presente. 

A meu ver, acima de qualquer ciência, o essencial de qualquer educação e pedagogia deveria ser: educar seres humanos em sua potência física, psíquica e espiritual, ajudando a criança a se adaptar ao mundo social e terreno, bem como integrar seu pensar e seu sentir para que, amanhã, ela possa agir e transformar o mundo, ajudando na construção de uma sociedade mais pacífica e consciente. 

Ser mãe é um caminho iniciático que começa muito antes do nascimento dos nossos filhos. Ainda no período da inatalidade, entre a morte e um novo nascimento na Terra, os filhos nos escolhem como guardiões de seus segredos. A partir do encontro entre dois seres, a centelha divina se instala no ventre de uma mulher e,  a partir desse encontro, o milagre da vida recomeça e inicia-se um caminho repleto de enigmas, dos quais os pais têm as chaves para desvendá-los. 

A criança pequena é um ser espiritual que aprende sobre si mesma através de nós. Neste sentido, a Antroposofia nos ajuda a entender cada fase do desenvolvimento por meio dos setênios. A cada um deles a criança vai “chegando” mais à Terra e nós, como pais, somos seus guias nesta chegada. 

Porém, temos de ter em mente que este ser possui uma história pregressa e que, nos três primeiros setênios, temos uma grande oportunidade de nos doarmos para o desenvolvimento integral desse ser humano até que, ao final deste período, ele se conecte ao seu eu verdadeiro. 

Podemos fazer isto de diversas formas, seja inconscientemente ou conscientes de que nosso papel influenciará definitivamente sua jornada na vida adulta. Podemos ajudá-lo a desenvolver aquilo que seu espírito já carrega como predisposições individuais e lapidar seus dons, ajudando-o a colocá-los a serviço do mundo. Neste sentido, é nosso amor devocional que despertará em nossos filhos suas maiores qualidades morais. O exercício da parentalidade e autoeducação ensinam este tipo de amor.

“Não há, basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a autoeducação. Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, na realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior.”

 

Rudolf Steiner – palestra de 20/4/1923, GA 306

Este conhecimento real do ser deve se tornar uma sabedoria do ser humano, para assim caminharmos rumo à verdadeira transformação do mundo. 

Segundo Peter Selg, se as crianças forem consideradas individualmente e como seres no início de suas biografias terrestres, escolhidas conscientemente por elas mesmas, ou seja, que chegam do mundo espiritual já com experiências anteriores e tarefas específicas em suas bagagens, isso implicará a maneira com a qual vamos lidar com elas, mas também com seu ser, que chegou sob as mesmas premissas.

Somente quando elas tiverem sua infância respeitada e vivida em um ambiente amoroso, teremos, de fato, uma transformação da humanidade. Isso acontece quando respeitamos e aguardamos cada etapa do desenvolvimento da criança. Basta criarmos um ambiente adequado, com exemplos dignos de imitação, dando tempo para que ela se desenvolva plenamente, sendo cuidada com interesse e a presença do adulto. Portanto, este processo só acontece por meio da real presença e autoeducação dos pais.

Como pais, recebemos uma criança e vemos apenas partes de um ser inteiro e precisamos dar tempo para seu desenvolvimento completo. Mas cada parte do seu vir a ser já carrega o todo em si. Este todo contido nas partes revela-se a nós quando nos colocamos em estado de real presença e atenção diante dela. 

Aqui reside o que há de mais sagrado no exercício da parentalidade, a capacidade de não julgar a criança pelo que ela apresenta momentaneamente, nos tornando capazes de enxergar seu ser espiritual por inteiro, ainda que a aparência momentânea não seja tão agradável e nos deparamos mais vezes com birras, cansaço e problemas. Isso é apenas parte de um todo perfeito, porque toda criança é um ser Divino, portanto à sua imagem e semelhança. 

Se você leu até aqui, mesmo sem nem saber quem sou, tenho certeza de que é porque isso já é uma verdade para você e que esta parentalidade já reside em seu coração. Neste sentido, talvez não possa oferecer respostas, mas posso provocar inquietações e muitas perguntas para que você queira seguir seu próprio caminho. Afinal, somente a vontade vinda do verdadeiro querer desenvolve nossa autoeducação. É desta forma que podemos nos tornar exemplos e inspiração para que a criança confiada aos nossos cuidados possa se educar em si mesma. No limite, sou apenas uma mãe, como tantas, em seu sacro-ofício, no ofício sagrado, exercitando minha humanidade. Portanto, sou cheia de imperfeições, mas tenho o amor como combustível; e nessa jornada resolvi convidar outros pais que enxergam a parentalidade mais do que um simples educar.

Porque criança imita e precisa de adultos que a inspirem, nos quais ela confie e que suscitem nela o desejo de crescer e se tornar cada vez mais humana. Somos seu ideal de ser humano. Ou seja, somos seu modelo perfeito, mesmo carregando imperfeições. Assim, a melhor forma de inspirar seres espirituais é cuidando dos nossos gestos humanos, seja conosco, com eles ou com as pessoas ao nosso redor, no trabalho, nas nossas atividades e com a natureza.

Nesse sentido, o que a Parentalidade Essencial se propõe, não é a  dar respostas, mas a aprender novas perguntas para que cada pai possa exercitar uma parentalidade mais criativa e cheia de sentido.

 

“O amor mais elevado, bem como a mais elevada arte, é a devoção.”

Joham Gottfried Herder (1744-1803)

Camila Capel Bio

Camila Capel

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