Parentalidade X Fidelidade

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Educar com amor é acreditar que, em uma semente colocada na terra, já  estão contidas as forças necessárias para germinar lindas flores. É como se a força do “vir a ser” já estivesse contida ali. Toda criança carrega em si a disposição para o bom, para o belo e para o verdadeiro, e os pais são os jardineiros que propiciam solo adequado, água e adubo para ela desenvolver estes aspectos em si. 

Esse é um exercício de extrema devoção, pois precisamos acreditar em algo que não vemos, não podemos provar, não podemos ter certeza e mesmo assim continuamos fazendo o trabalho, esperando o dia da colheita. Ironicamente, a colheita não é para próprio usufruto, a beleza das flores será para enfeitar o mundo. 

É neste exercício que realmente podemos exercitar o amor universal, um amor de quem não faz para si, mas faz para deixar algo bom para o futuro, para o mundo. Este talvez seja o verdadeiro sentido de doação da parentalidade: fazer algo não para nosso benefício, mas para o coletivo maior.

Rudolf Steiner coloca lindamente a fidelidade e a educação caminhando lado a lado. Em poucas palavras, no trabalho de educar, nos deparamos com dias de sol lindos e luminosos, porém em certas fases estes dias serão escassos e o que veremos serão dias nublados, com nuvens cinzentas. É neste ponto que reside a fidelidade; atuamos de um lugar em que acreditamos no sol que brilha por trás das nuvens cinzas e carregadas.

Em família, o sol são aqueles momentos únicos que às vezes ocorrem entre quatro paredes, sem alarde, pequenos gestos que emanam de nossos filhos de forma espontânea, sem que tenhamos pedido ou ensinado. Aqueles momentos, por ora fugazes, em que enxergamos neles sabedoria, altruísmo nato, empatia espontânea, algo profundamente genuíno que, de certa forma, parece que aprenderam por si. 

Se tivermos fidelidade nesta força interior, poderemos exercer a parentalidade consciente. Ao vasculhar na memória, todo pai certamente encontrará momentos em que viu tudo aquilo que gostaria de ensinar ao seu filho concretizado em suas ações, e o olhou com orgulho, confiou nas lindas flores que ele já carrega consigo.

Que possamos, nos momentos de desafio que o ato de educar um ser nos traz, manter o olhar fiel para nossas crianças. Que ao invés de olhar e reclamar do que não podemos fazer num dia de chuva, possamos enxergar o sol que brilha acima dela e apenas esperar que ela passe. Só assim, poderemos construir novas imagens dos nossos filhos, com base na mais profunda e verdadeira fidelidade.

Camila Capel Bio

Camila Capel

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