Ritmo ou Rotina- Qual a influência disso na saúde da criança?

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Por Camila Cassia Capel

#antroposofia #parentalidade

Nos primeiros sete anos de vida a criança pode ser entendida como um grande órgão sensório que capta o meio ambiente para se moldar internamente. Sim, o meio ambiente molda e imprime sua marca eternal na criança.
Tudo que a criança capta as partir de seus órgãos sensoriais ( visão, olfato, tato, audição, paladar) geram emoções que ficam armazenadas sob a forma de memórias implícitas. Mas não apenas isso, valores, crenças e emoções do ambiente nutrem  e formam o que podemos chamar de alimento anímico (do latim anima, que tem como sinônimo a palavra alma). Desse processo de absorção, aliado aos cuidados com seu  físico, através da alimentação, sono, higiene, ritmo, tato e afeto, a criança vai  formando uma espécie de “corpo”. Um corpo relacionado aos processos vitais humanos, Por esse motivo, dizemos que na  infância formamos um ser para a vida inteira. Não apenas seu corpo físico se desenvolve nos primeiros anos de vida, mas estruturas cerebrais complexas, relacionadas a aspectos mentais e emocionais, têm sua base nessa fase.
Um palavra que usamos bastante na visão antroposófica é  ritmo. Ritmo se refere a necessidade de pulsar e viver na alternância das forças de expansão e contração. Tal alternância molda o corpo, deixando marcas fisiológicas. Na infância moldamos um ritmo respiratório, por exemplo, a partir do ambiente que proporcionamos para a criança. Um ambiente tranquilo molda um tipo de fisiologia, já um ameaçador ou hostil, faz com que a complexa fisiologia seja impactada de uma forma diferente.  Portanto, o ritmo que imprimimos na vida da criança será seu território na vida adulta e influenciará toda a sua saúde.
Na pedagogia Waldorf, as salas de aula tentam reproduzir ao máximo o ambiente doméstico e estabelecer um ritmo, como numa casa, pois entende-se que no primeiro setênio este é o ambiente salutar para que uma criança se desenvolva.
Podemos comparar ritmo e rotina com ritmo e melodia. O ritmo dita o tempo musical e o estilo da música, já a melodia é sucessão de sons ritmados que, organizados, proporcionam um sentido musical. Acontece algo semelhante com a criança: uma rotina sem ritmo pode ter um resultado extremamente desarmonioso, como no caso de uma melodia sem ritmo.
A alternância de movimentos traz equilíbrio e constância para o corpo. A criança se contrai, ou seja, se concentra para a refeição, banho ou sono e se expande no brincar, correr ou num passeio na natureza.
Trazer ritmo no cotidiano da criança não tem uma regra estática nem um manual a se seguir, tem a ver com trazer um todo coerente. Uma outra característica importante do ritmo é a presença de pausas. Nesse intervalo, o que sobra do movimento tem um ressoar individual, como num concerto de música, que quando o artista para de tocar ainda podemos sentir a música vibrando dentro de nós, na pausa da criança, ela apreende o que viveu dos  seus movimentos.
Repare que o ritmo está sempre presente em nossa vida,  ele se expressa nas mudanças das estações do ano, nas festas do calendário como Páscoa, Festa Junina, Natal. As estações do ano  mudam o cenário da natureza, faz com que mudemos o tipo de roupa e até a alimentação. Inclusive nossas emoções também se transformam com as mudanças climáticas, tendemos à introspecção no inverno, como as árvores que se recolhem; mas  temos total extroversão no verão, como o sol que desponta vibrante. Assim, podemos observar em nós a oposição entre estado mais melancólico e  alegria.
Estas nuances sutis da natureza, normalmente, passam despercebidas para o adulto, tão mergulhado no mundo físico, mas a criança possui o olhar para o sagrado e se relaciona com estes elementos do cosmo de forma intrínseca.
Portanto, na educação, nossa tarefa também é espelhar esta harmonia no ambiente. Podemos começar trazendo para ela a percepção da alternância entre dia e noite e as diferenças entre eles. O dia da criança com ritmo pode começar com o abrir das janelas, o cheiro do café, a rotina das tarefas domésticas, um passeio ao sol, um lanche e uma soneca, tudo isso marca o meio da manhã, enquanto o cheirinho da comida no fogão induz o apetite para a hora do almoço.
À tarde, o brincar e talvez mais uma soneca, um lanche, o cheiro do jantar, a diminuição das luzes da casa, o movimento mais calmo do ambiente mostram o cair da noite. Essas mudanças podem ser seguidas de um ritual de banho, da leitura de uma história, de um escalda pés, ou seja, pequenos ritos que trazem segurança para a criança, exatamente porque ela sabe que todos os dias serão iguais.
O que pode parecer monótono para um adulto, pode ser extremamente calmante para uma criança.  O adulto se cansa com a repetição, mas a criança necessita dela para a aquisição de toda e qualquer nova habilidade.
Um ambiente ritmado e caloroso traz apenas consequências positivas para uma criança. A neurociência e a epigenética hoje comprovam que o ambiente ao qual uma pessoa é exposta modifica a fisiologia do seu corpo e a expressão de seus genes. O ambiente promove estímulos sensoriais que despertam certos tipos de emoções, que estão diretamente relacionadas às reações fisiológicas.
Os estudos da epigenética comprovaram que não apenas os fatores genéticos são determinantes para a manifestação de doenças, ditas genéticas. Podemos carregar genes e não os manifestar se o ambiente não propiciar sua expressão. Isso porque é o ambiente que informa o núcleo da célula como ela deve se comportar e esta, se reproduz de acordo com estas informações que recebe do externo. Desta forma, manifestações de saúde e até doenças genéticas podem ser evitadas dependendo do ambiente em que a pessoa está inserida. E um ritmo adequado, constante em sua alternância de expansão e contração, com pausas entre elas, é um solo seguro para que a criança experiencie, no primeiro setênio, um ambiente de segurança física e emocional e possa, inclusive, desenvolver-se espiritualmente.
Como em todos os aspectos de nossa vida, na educação das crianças não seria diferente, precisamos encontrar equilíbrio. Uma rotina engessada não oferece a alternância necessária, mas podemos encontrar um ritmo harmonioso que se adeque à nossa família.
É interessante observar a rotina como um esqueleto, uma carcaça rígida. Para torná-la maleável é necessário colocar calor. Portanto, tudo bem atrasar o jantar quinze minutos se a brincadeira estiver muito gostosa, isso não vai mudar o hábito do jantar; afinal, não estamos falando em mudar estruturas, apenas flexibilizá-las, torná-las humanas e calorosas.
Referência:
LAMEIRÃO, Luiza Helena Tannuri. Criança brincando! Quem a educa?

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Camila Capel

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